HOME   |   Artigos, Urbanismo  |   Calçada e uso misto

Calçada e uso misto

Artigos, Urbanismo
11/08/2016
Artigo de Roberto Ghione, publicado inicialmente no IAB/DN.

A crise das cidades brasileiras se manifesta cruamente na degradação do espaço público, na deterioração de seus elementos físicos e no desestímulo à apropriação pelas pessoas.

Em cidades como Recife, o estado lastimável das calçadas reflete não apenas o descaso com o estado de conservação, mas o desrespeito ao direito elementar de ir e vir com liberdade e segurança. A sociedade, viciada pelo automóvel e doente de individualismo e egoísmo, desconsidera qualquer coisa situada além do próprio domínio patrimonial, como o espaço público, sob a complacência de governos e instituições.

Perante o desânimo das pessoas comprometidas com uma cidade melhor, casos excepcionais de calçadas bem construídas e conservadas viram motivo de comentários elogiosos nas redes sociais, porém referidos apenas ao objeto “calçada”, existente ao longo de extensos muros fechados ou beirando jardins tão bonitos quanto intransponíveis.

Imagem: Foto da Rua José Maria de Miranda, em Boa Viagem, bairro do Recife. Crédito: Romulo Gama/comuniQ

Imagem: Foto da Rua José Maria de Miranda, em Boa Viagem, bairro do Recife. Crédito: Romulo Gama/comuniQ

O conceito de calçada como extensão natural de usos do solo localizados nos pavimentos térreos das edificações que configuram a cidade, garantindo a apropriação, o controle e a segurança do espaço público, assim como a consolidação de lugares urbanos qualificados, parece não existir na consciência dos gestores e habitantes da cidade e, o que é preocupante, de colegas que se intitulam arquitetos e urbanistas.

Nesse ponto surge outro assunto em questão, difundido nos últimos tempos, porém não assumido como deveria: o uso misto.

Perante as críticas ao modelo de cidade excludente, a promoção do uso misto se apresenta como estratégia para a construção de contextos humanizados e apropriáveis. Porém, tanto gestores quanto empreendedores e colegas misturam conceitos e confundem a essência do uso misto (a localização de comércios, serviços e atividades de lazer vinculadas à rua nos pavimentos térreos dos edifícios residenciais para estimular a apropriação do espaço urbano) com a diversidade de usos. Assim, temos assistido ultimamente a lançamentos de empreendimentos imobiliários com o apelo comercial do “uso misto”, que não são outra coisa além da combinação de usos excludentes (residencial, empresarial e hoteleiro) em uma mesma edificação ou em um conjunto delas, sem a mínima preocupação pela solução do encontro entre arquitetura e calçada.

No contexto das cidades brasileiras, a boa arquitetura precisa ser resolvida no ponto de contato entre edifício e espaço público. Calçadas qualificadas e uso misto são componentes essenciais para resolver não apenas a arquitetura, mas a cidade, a partir de estratégias de integração social. Nesse contexto, o conceito de urbanismo remete, não apenas ao planejamento urbano e territorial, mas à relação entre arquitetura e cidade de cada edifício projetado. Resulta necessário consolidar legislações urbanísticas que considerem essas relações em substituição da arquitetura excludente promovida atualmente por elas.

A declamada“cidade para as pessoas”, integrada e inclusiva, encontra-se, no Brasil, longe de sua realização (apesar dos apelos esclarecidos de quem sonha um futuro melhor), comprometendo o próprio desenvolvimento do país e a construção de uma sociedade baseada nos valores de urbanidade e civilidade. Arquitetura e cidade merecem ser pensadas como componentes de mútua valorização se a pretensão é construir um habitat estimulante de um desenvolvimento social e cultural genuíno e sustentável. Nesse contexto, calçadas e uso misto se apresentam como instrumentos a serem levados em conta para a transformação substancial do atual modelo decadente de cidade.


Artigo de Roberto Ghione publicado pelo IAB/DN . Ghione é arquiteto, formado pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, especializado em Historia e Crítica da Arquitetura, Preservação do Patrimônio e Planejamento Urbano.

 

Comentários: