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Contemporâneo de si mesmo: duas residências de Artigas em Curitiba

Artigos, Projeto
19/10/2016
Artigo do presidente do IAB/PR, Irã Taborda Dudeque publicado na revista Risco, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da USP - São Carlos. O texto compara duas residências projetadas por João Batista Vilanova Artigas em Curitiba: Residência Bettega-Portela (1949-1952) e Residência Niclevicz-Bertoldi (1975-1978), a partir de critérios formais e contextuais, com o objetivo de entender eventuais mudanças e permanências na obra do arquiteto.
O arquiteto projetou uma residência para sua sobrinha com liberdade quase total. Entregou a ela alguns poucos desenhos e disse-lhe que não precisava se preocupar, pois esclareceria dúvidas quando aparecessem. Enquanto construía a residência, Márcia telefonava várias vezes por semana, de Curitiba para São Paulo, a fim de saber as novidades e conversar com o tio, que lhe ditava instruções e enviava correspondência com especificações dos produtos, amostras das cores e texturas que gostaria que fossem utilizadas.
Márcia Niclevicz, nascida Márcia Vilanova Artigas, era filha de Joel, irmão mais novo do arquiteto João Batista Vilanova Artigas. Na adolescência, Márcia morou alguns anos em São Paulo, na casa do
tio João Batista. Em 1969, acompanhou, apreensiva, o afastamento de Artigas da FAUUSP, imposto
pela ditadura militar iniciada em dezembro do ano anterior. A sobrinha entendia as preocupações
políticas e arquitetônicas do tio e as birras dele em relação a Curitiba, cidade onde ele nasceu e passou
a maior parte da adolescência, até que, aos 18 anos, a intenção de tornar-se engenheiro-arquiteto levou-o a se mudar para São Paulo. Na nova cidade, ele trabalhou como engenheiro e construtor, dedicou-se à arquitetura e à arte. Em 1944, Artigas projetou as residências de seus irmãos Joel e Giocondo, em Curitiba. O projeto, influenciado por Frank Lloyd Wright, unificava as duas residências por meio de um telhado comum que as fazia parecer uma construção única.
No ano seguinte, em São Paulo, Artigas recebeu a solicitação de um orçamento para projetar um hospital em Curitiba. Os proprietários do hospital julgaram altos os valores dos honorários, e que poderiam economizar dinheiro construindo-o a partir de alguns desenhos de conceito rudimentar, a guisa de projeto arquitetônico, apresentado por profissional alheio à arquitetura. Numa contestação
contra a aparente economia, Artigas enviou uma carta aos proprietários. Enfileirou tantas vantagens
do projeto arquitetônico sobre o empirismo projetual, que os convenceu. Os proprietários do Hospital São Lucas decidiram construir o projeto de Artigas.
Ainda em 1945, com 30 anos, Artigas filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). A partir da
filiação, a casa de seu irmão Joel (a casa de Márcia), em Curitiba, passou a dispor de um dormitório
vago para hospedar camaradas do “Partidão” em trânsito, a qualquer hora, sem perguntas. Joel não
militava no PCB; abriu sua casa aos comunistas pela estima ao irmão. Porém, alguns parentes curitibanos repudiavam aquelas opções polticas, o que podia converter eventuais encontros numa oportunidade para provocações e desavenças.
Em 1949, Artigas projetou a residncia do médico curitibano João Luiz Bettega, seu amigo e simpatizante comunista. Depois disso, Artigas sentiria cada vez mais desprezo pelas opções de Curitiba. Ele parecia repudiar os engenheiros e engenheiros-arquitetos da cidade, que tendiam a se declarar técnicos, artistas, apolíticos, neutros, objetivos, profissionais para quem a arquitetura
representava um conjunto de técnicas e formas. Ou seja: as pessoas que um comunista rejeitava, por perceber que mantinham uma ideologia que os obrigava a simular que não tinham ideologia (característica quetransmitiriam aos arquitetos que os sucederiam). Rosa, filha do arquiteto, relembraria a decepção do pai comas eleições presidenciais de 1955, quando quase 40% dos eleitores de Curitiba tornaram o integralista Plínio Salgado o mais votado da cidade.
Artigas só voltaria a projetar em Curitiba em meados da década de 1970, quando Márcia e seu marido decidiram construir uma residência para a própria família. A obra resultante testemunharia que ela procurou realizar tudo o que o tio arquiteto projetou e sugeriu. A destruição da residência na qual Márcia morou durante da infância até a juventude (residência de Joel e Giocondo Artigas) liberou o lote para um estacionamento. Este artigo pretende comparar as duas residências remanescentes projetadas por Artigas em Curitiba (Bettega e Niclevicz), a fim de entender eventuais mudanças
e permanências na obra do arquiteto.
Veja o artigo completo na revista da USP: http://www.revistas.usp.br/risco/article/view/121406/118318
Irã Taborda Dudeque
Arquiteto e Urbanista, doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, professor adjunto da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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