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Crônica de Escritório de Arquitetura Thobias conta a história de um caso de mistério em Paris

Artigos, Patrimônio, Projeto, Sistemas Construtivos, Topografia, Urbanismo
22/11/2016
Texto de Irã Dudeque publicado na revista aU.

O suicídio de um arquiteto rococó fornece assunto para as conversas maliciosas do grand monde. O suicídio de dezenas de arquitetos e entalhadores rococós atormentava a Polícia Estética de Paris. Por um pendor missivista francês (valha-nos, Chordelos de Laclos!), os suicidas legavam recados para os vivos. O Real Inspetor do Bom Gosto, da Galanteria & da Gaiatice & da Elegância, Monsieur Sébastien Leclerc, lia e relia as mensagens. Mas não conseguia sequer conjecturar hipóteses para decifrar os fatos. Apenas lamentava. As mortes sucediam-se. Restou-lhe procurar um observador dotado de sagacidade e perspicácia: Monsieur Ricardo Marques de Azevedo.

Encontrou-o no saguão de uma biblioteca, conversando com Denis Diderot. Leclerc supunha que Marques de Azevedo desprezava artífices rococós. Por isso, despejou suas palavras: “Monsieur, deveis saber que alguns galhofeiros arquitetos suicidaram-se”. Num alexandrino, Marques de Azevedo fingiu lamentar: “frondosos construtores de plumas e rendas…” Leclerc esparramou-se em lamúrias: “Cumpre à minha Inspetoria zelar pela vida dos arquitetos que criam o Regozijo Folgazão dos ornamentos, o Gozo Prazenteiro das platibandas, o Frêmito Chistoso das sanefas, a Concupiscência Luxuriosa dos espelhos, o Arroubo Faceiro dos lustres, o Deleite Ardoroso das superfícies. Tais mortes, porém (ó, dor indizível!), maculam o Decoro, ofendem a Distinção, flagelam o Garbo, corrompem a Magnificência. Necessito de Vós. Creio que vossa argúcia esclarecerá o mistério”. Marques de Azevedo perscrutava a abóbada do teto, tentando formular desculpas que o desobrigassem da tarefa. Leclerc informou-lhe a respeito dos recados. Sacou alguns papéis do bolso, pigarreou e leu, solene: “Por que, homem de Deus, apontar com tanta ênfase meus defeitos?” Marques de Azevedo exasperou-se, entediado. Outro bilhete suicida registrava: “Adeus, não basta uma beleza arbitrária, mas uma beleza apropriada às circunstâncias e nada mais que isso”. Marques de Azevedo intuiu algo interessante e disse convicto: “Aceito o caso!”.

Naqueles dias, as mudanças nos debates arquitetônicos de Paris seduziam e espantavam Marques de Azevedo. Charles-Etienne Briseux omitiu os candelabros, as cortinas, os espelhos, e morreu discorrendo a respeito do “belo essencial”. Germain Boffrand morreu opondo-se à relatividade do gosto. Jacques-François Blondel protestava contra a volatilidade das modas. Disposto a voltar às origens, Julien David Le Roy apelava à diplomacia francesa a fim de ver e medir as ruínas gregas. Em vez dos barroquismos de Roma, Marie-Joseph Peyre só se preocupava com a monumentalidade axial que organizava as antigas termas. A mania suicidária continuava. Em busca de pistas, Marques de Azevedo parlamentou com Blondel, Le Roy e Peyre. Parecia-lhe (com acerto, descobriria depois) que eles sabiam das causas do autoextermínio rococó, mas evitavam inconfidências. Blondel apenas divagou: “um homem de Deus nos ensinou a mudar ou os Tempos nos devoram”. Marques de Azevedo percebeu que Blondel repetira a expressão de um dos recados suicidas: “homem de Deus”. Era uma pista.

Homem de Deus… Marques de Azevedo levantou o nome de todos os arquitetos que projetaram, construíram ou reformaram igrejas na França, viajou para várias cidades, inquiriu muitos deles. Alguns se mataram nos dias seguintes. Marques de Azevedo percebeu uma contradição. As conversas daqueles elegantes arquitetos assemelhavam-se aos edifícios e decorações que eles concebiam: enrolavam os raciocínios (que iam e vinham e iam e desvinham), torciam os argumentos, enfiavam palavras esplendorosas e inúteis nas frases. E apesar de tantas cintilações verbais, nada explicavam. Na hora da morte, porém, pareciam sofrer uma conversão clássica, deixando bilhetes curtos, precisos. Um recém-suicidado escreveu que “nas partes essenciais estão todas as belezas; nas partes acrescentadas por capricho estão os defeitos”.

Por desassombro, Marques de Azevedo formulou a hipótese de que algum espanhol (todos homens de Deus) avesso à decoração e aos caprichos passara a exigir uma postura menos leviana dos arquitetos franceses. Frequentou o clandestino submundo espanhol da arquitetura parisiense. Encontrou colunas retorcidas, encontrou desenhos que elucidavam o Paraíso Terrestre, encontrou as medidas de Adão, encontrou análises dos pilares que sustentavam a Torre de Babel, encontrou as chaves cabalísticas do Santuário da Anastasis, encontrou comprovações de que a sombra solidificada de Cristo converte-se em Templo, encontrou cálculos precisos a respeito dos módulos da grelha que recebeu o martírio de São Lourenço, encontrou detalhadas descrições urbanísticas da Jerusalém celestial, encontrou uma seita que pretendia vingar a morte de Iran, Arquiteto do Templo de Salomão. O recado de um novo suicida registrava: “Queríamos nos ajustar ao simples e ao natural”. Marques de Azevedo percebeu o toque de Rousseau na frase. Abandonou os misticismos espanhóis e voltou às hipóteses francesas.

Os suicídios e os bilhetes converteram-se numa moda: “Quereis que o Atrativo do edifício una-se à Solidez! Mas como amalgamá-los?”; “Cri nos romanos, mas nossas dívidas são gregas!”, “Sabemos de decoração, nossos antepassados sabiam de construção”. Marques de Azevedo começava a sentir-se humilhado. Tantas mortes e conversas, mas ele dispunha apenas de indícios esparsos.

Numa tarde erudita e preguiçosa, Marques de Azevedo jogava péla com Denis Diderot e com o Chevalier Louis de Jaucourt. Jacques-François Blondel apareceu. Ele e Diderot mexericaram a respeito dos suicídios. Blondel comentou, irônico: “aqueles modeladores de conchas e gavinhas, incapazes de compreender a pureza da cabana primitiva”. O raciocínio de Marques de Azevedo iluminou-se. Repetiu em silêncio todas as expressões lidas e ditas: homem de Deus, beleza apropriada, defeitos, belo essencial, o simples e o natural, atrativo unido à solidez, cabana primitiva…

Pressentiu uma solução. Abandonou o jogo. Correu até sua maison. Pegou um livro na estante da biblioteca. Leu algumas anotações. Confirmou seu pressentimento e foi além. Entendeu que uma causa comum unia os suicídios e as conversões de Blondel, Le Roy, Peyre et alii.. Decidiu realizar um ato que a modéstia o impedira até então. Dirigiu-se com o livro até o convento dos jesuítas. Lá, orientaram-lhe a subir até o piso dos dormitórios. Percorreu um longo corredor. Entrou numa cela de teto baixo, com paredes toscas e cama paupérrima. Viu um padre (“homem de Deus”), sentado numa mesa, escrevendo, de costas, aproveitando as últimas luzes do dia. Marques de Azevedo sabia que ali estava o maior incentivador dos suicídios e das conversões a um novo classicismo. O ruído dos passos atraiu a atenção do padre, que se virou. Marques de Azevedo entregou-lhe o livro e pediu, emocionado: “Abade Marc-Antoine Laugier! Poderíeis conceder-me a gentileza de autografar este meu volume do Ensaio sobre a arquitetura?”.

ESCRITÓRIO DE ARQUITETUR A THOBIAS® é uma criação de Irã Taborda Dudeque, arquiteto, historiador, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e presidente do IAB/PR. Suas ficções arquitetônicas começaram em 1998, como um fanzine distribuído na pós-graduação da FAUUSP.


Esse texto foi publicado originalmente na revista aU em fevereiro de 2014

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