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O início do Escritório de Arquitetura Thobias, na época em que o tempo não fluía, e os arquitetos elaboravam projetos com vagar

Artigos, Projeto, Sistemas Construtivos, Topografia, Urbanismo
19/12/2016
Texto publicado originalmente na revista aU do Escritório de Arquitetura Thobias, uma uma criação de Irã Taborda Dudeque, presidente do IAB/PR, arquiteto e historiador.

 

O Escritório de Arquitetura Thobias® surgiu numa época em que o tempo não fluía, num protouniverso provido de um espaço elástico, que se enrolava e se contraía ao redor dele mesmo, num torvelinho que o reduzia ao seu epicentro. O Escritório situava-se numa espécie de concha com dimensão nula, lacrada sobre a própria perfeição. Dentro, arquitetos imorredouros elaboravam projetos com vagar, indiferentes a prazos e necessidades. Quem entrasse no ateliê submergia num silêncio onipotente. Cada cômodo era um labirinto incansável, dentro de segredos, cercados de mistérios. Quando reverberações perturbavam aquele breu infindo, sabia-se que um colaborador de movimentos lerdos e pacientes saiu de alguma cavidade para divulgar projetos incompreensíveis, que ele ideou sem saber o motivo. Estagiários e arquitetos associados apareciam em ocasiões imprecisas, deslizavam seus corpos imateriais pelos desvãos do escritório e, antes que alguém pudesse encontrá-los, voltavam a submergir nos poros insondáveis da matéria infinitamente densa e infinitesimalmente ínfima que compunha aquele mundo.

Sem um tempo a fluir, os eventos se acumulavam e se sobrepunham, como bolhas translúcidas, uma embutida dentro da outra. Hoje, neste degradado universo atual, uma sucessão de fatos conforma a vida de qualquer arquiteto. João Batista Vilanova Artigas, por exemplo. Ele nasceu em 1915 e morreu em 1985; entre 1962 e 1969, projetou e construiu o edifício da FAUUSP. Em vez dessas sequências, naquele protouniverso todos os instantes da vida de Artigas ocorreriam simultaneamente: o nascimento, a infância em Curitiba, a formação em arquitetura, as visitas à obra da FAU, o exílio e a morte coexistiam num único e irredutível momento.

O mesmo valia para toda a história da arquitetura. Um ser humano “primitivo” construía a cabana original no mesmo instante em que Vitrúvio descrevia tal saga em seu Livro II, que era o mesmo instante em que os mestres góticos inventavam estruturas de pedra e Artigas discorria sobre o desenho, que era o mesmo instante em que Paul Rudolph requintava suas superfícies de concreto e que o Abade Marc-Antoine Laugier escrevia contra os frontões que não terminam em ponta triangular, que era o mesmo instante em que os desconstrutivistas desmantelavam os princípios da arte e que Claude Perrault torcia a venustas vitruviana, tudo num perpétuo anacronismo, isento de presente, futuros ou passados. E as obras daqueles arquitetos compartilhavam elementos construtivos, consubstanciando-se numa sincronia de interações mútuas. As moléculas de Stonehenge reverberavam a FAU, cujas moléculas reverberavam o Pártenon, que reverberava o Taj Mahal, que reverberava a Catedral de Chartres e o cassino da Pampulha, que reverberava Stonehenge. E quem analisasse uma daquelas construções compreendia todas conjuntamente, pois Stonehenge era a Pampulha, que era a acrópole de Atenas e o Taj Mahal, que eram as Catedrais góticas e o ilopolitano Museu do Pão. A visão daquelas obras abrangia todas as dimensões, pois o observador poderia enxergar, numa única mirada, a frente e o fundo e as laterais e a planta e os cortes de todos aqueles edifícios e muitos mais, como um minucioso tesseract arquitetônico. O enrolamento do espaço impedia a existência de hemisfério, coordenadas ou posição. Por isso, nenhuma obra arquitetônica dispunha de norte, sul, volume ou área: o tamanho do plano-piloto de Brasília coincidia com o da capela do Palácio do Planalto.

Como o tempo não fluía, nenhum cronograma organizava os projetos. Tudo acontecia cem anos antes, mil décadas depois, um milhão de séculos durante e de través. Arquitetos não atravessavam noites desesperadas para entregar trabalhos, pois não havia noites, nem dias, nem datas. A eternidade presidia o projeto, o detalhamento e a construção de qualquer obra. Antes de iniciadas, as obras já estavam concluídas, embora o início e o final estivessem situados para lá de jamais ou perto de sempre. Os clientes mantinham-se sossegados como diamantes, pois desconheciam os prazos.

Apesar da displicência, o imaterial Escritório de Arquitetura Thobias® era o maior e mais satisfeito daqueles antitempos de tempo estático e espaço retorcido. Porém, numa ocasião infeliz, ocorreu um súbito aumento da temperatura e uma desmesurada explosão. O Big Bang obrigou o escritório a inventar novas arquiteturas, adaptadas a um novo universo.


ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA THOBIAS® é uma criação de Irã Taborda Dudeque, arquiteto e historiador. Suas ficções arquitetônicas começaram em 1998, como um fanzine distribuído na pós-graduação da FAUUSP, e também estão publicadas em http://arquiteturathobias.blogspot.com

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