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IAB: poucos recursos e boa fama

Artigos, IABPR
12/04/2016
Em “De Architectura Libri Decem”, no preâmbulo do Livro VI, o romano Marcus Vitruvius fala de si-próprio com palavras que poderiam ser uma epígrafe do Instituto de Arquitetos do Brasil: “não me dediquei à arte de ganhar dinheiro, (...) mais vale a pobreza com boa fama do que a abundância com infâmia”.

Ao longo de 95 anos, o IAB manteve sua liberdade de pensamento e de ação, mesmo que isso tenha representado décadas de dificuldades financeiras. O IAB jamais vendeu seu apoio para causas arquitetônicas suspeitas, mesmo que lucrativas. A história do Instituto não está na pompa estéril dos bustos ou nas pinturas mostrando as caras de ex-presidentes, mas na defesa da qualidade da arquitetura e das cidades, na defesa dos concursos públicos de arquitetura e da moradia digna para as populações carentes das diferentes regiões do país. O IAB é membro-fundador da União Internacional de Arquitetos (UIA, órgão consultivo da UNESCO para assuntos relativos ao habitat e ao espaço construído), da Federação Panamericana de Associações de Arquitetos (FPAA) e do Conselho Internacional de Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP). O IAB enfrentou duas ditaduras, enfrentou ocupações desarrazoadas do solo urbano, enfrentou poderosas forças do mercado imobiliário. E enfrentou as dificuldades para pagar contas no final do mês e fechar balanços no final de cada ano. Afinal, “mais vale a pobreza com boa fama”…

Atuar nessa rede nacional que é o IAB nos obriga a receber e continuar o legado de virtuosos predecessores que enobreceram a militância do Instituto: Oscar Niemeyer e Jorge Machado Moreira, Vilanova Artigas e Miguel Pereira, Henrique Mindlin e José Bina Fonyat, Mauricio Roberto e Sergio Bernardes, Affonso Eduardo Reidy e tantos outros. Nenhum membro atuante do IAB recebe qualquer pagamento financeiro pelos trabalhos que desenvolve. Contentam-se com fugazes recompensas, como o reconhecimento por parte dos colegas, as parabenizações ao final de eventos e as críticas nas redes sociais da internet.

O Departamento do Paraná do IAB foi fundado em 1962. Em 1997, IAB/PR organizou o Congresso Brasileiro de Arquitetos. Em 2002, colaborou para eleger Jaime Lerner como presidente da UIA. Depois de um período de adversidades, o IAB/PR ressurgiu a partir de 2004, graças à atuação de João Virmond Suplicy. Em 2008, ele assumiu a presidência da Direção Nacional do Instituto. No ano seguinte, Jeferson Dantas Navolar foi eleito presidente do IAB/PR. Claudia Taborda Dudeque o sucedeu. Toda a atuação desse período estava voltada para a criação do CAU. O foco de interesse convergia em Brasília, nos grupos de trabalho da Câmara dos Deputados, na atuação de Senadores, nos contatos com a Casa Civil da Presidência da República e nos demais trâmites para a aprovação do projeto. Aprovado o CAU, o IAB obrigou-se a assumir tarefas no início da construção da nova autarquia.

Todos esses movimentos fizeram com que o IAB/PR deixasse de lado, taticamente, a atuação cultural na sua própria sede. E havia também um outro problema que lacerava os envolvidos com o IAB/PR: a excessiva concentração na capital, herança dos tempos em que só havia cursos de arquitetura em Curitiba.

Por isso, nos anos de 2014 e 2015, a ação do IAB/PR concentrou-se na organização de núcleos regionais. Foram fundados, até o momento, os núcleos de Maringá e Oeste (com sede em Cascavel). O núcleo de Londrina está sendo reativado. Agora, no primeiro trimestre de 2016, o IAB-PR reestabelece sua agenda cultural. Em março, realizamos o IAB-Mulher, a fim de debater a inserção de arquitetas no mercado de trabalho (nunca é excessivo lembrar que as arquitetas representam mais de 60% dos profissionais de Arquitetura e Urbanismo atuantes no país). Estão sendo organizados eventos profissionais-culturais para os próximos meses. Uma antiga aspiração do IAB começa a tomar forma, com a perspectiva de lançarmos, ainda este semestre, o edital para premiação de projetos arquitetônicos realizados no Paraná de acordo com critérios de qualidade (o exemplo, neste caso, é o IAB/RJ, que realiza premiação semelhante há décadas). Está sendo ampliada a lista de benefícios aos associados. Há também o próprio lançamento deste novo site do IAB/PR.

Em 1506, o Papa Júlio II iniciou a construção da nova Basílica de São Pedro, em Roma. Dezessete pontífices o sucederam, mais de um século se passou, até que coube ao Papa Paulo V encomendar a fachada do edifício. A pedido do narcisista cliente, o arquiteto Carlo Maderno gravou no gigantesco friso: IN HONOREM PRINCIPIS APOST PAVLVS V BORGHESIVS PONT MAX AN MDCXII, ou seja, “Em honra ao príncipe dos apóstolos Paulo V, da família Borghese, Pontífice Máximo, ano 1612”. Sem o perseverante trabalho dos três presidentes que me antecederam (Claudia Dudeque, Jeferson Dantas Navolar e João Virmond Suplicy) não haveria este site, nem a estrutura para a criação dos núcleos e nem as atividades do IAB para 2016. Iniciei estas linhas rememorando o romano Vitruvius. Agora, invoco a symmetria, descrita pelo próprio Vitruvius, para concluir este texto com uma analogia romana. Ao expor meu nome na “fachada” deste site, eu me sinto como uma espécie de Paulo V.


Irã Taborda Dudeque
Presidente – IAB
Triênio 2014-2016

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