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DISCURSO DE POSSE DO CAU-PR - 14 de dezembro de 2011

Inicio a minha fala com uma homenagem: dedico este momento ao arquiteto curitibano João Batista Vilanova Artigas. Ao fazer esta homenagem, homenageio a todos os demais colegas que de alguma forma contribuíram para esta caminhada em direção ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo.

A Carta de Recife, elaborada durante o 19 Congresso Brasileiro de Arquitetos, (junho de 2010) pode ser considerada a Certidão de Nascimento do CAU, transcrevo abaixo a integra deste documento histórico, adotando seu conteúdo como princípios fundamentais para nortear a atuação do CAU-PR:
...Com o CAU, os Arquitetos e Urbanistas, trazem à sociedade brasileira o compromisso com a construção de um espaço nacional mais harmônico, justo e de qualidade.
Reafirmam a importância da arquitetura como manifestação cultural, necessária à emancipação de um povo, instrumento eficaz para o desenvolvimento de cidades republicanas, democráticas e constituintes de cidadania nesse país de múltiplas temporalidades.
O Brasil torna-se, neste século, protagonista político e econômico no cenário internacional. No entanto, em nossas cidades convivem tempos e modos arcaicos, desigualdades e precariedades ao lado de ilhas de alta tecnologia e bem estar.
Os investimentos em curso nas cidades brasileiras, nas preparações para os grandes eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, não podem se perder em obras pontuais, que atendam no futuro apenas a poucos brasileiros.
Todo investimento e toda ação no território devem objetivar a redução da pobreza, a coesão social, a qualificação do ambiente e a preservação da memória, matriz de nossa identidade.
As cidades brasileiras são realidades socioeconômicas, culturais e políticas determinantes no processo de desenvolvimento do país, e se articulam em redes, metrópoles e regiões metropolitanas, exigindo novos modelos de planejamento e gestão, compatíveis com essas realidades.
A ocupação do espaço produtivo, acelerada em tempos de crescimento econômico, exige a compreensão de processos mundializados e representativos de interesses diversos.
A organização do território é tarefa inadiável, e os arquitetos brasileiros saberão exercer suas tarefas e suas inalienáveis responsabilidades e competências: cabe-nos desenhar hoje o que se quer para o futuro.
Cabe a toda a sociedade e ao Estado garantir as condições justas e democráticas de valorização do trabalho de todos os profissionais da construção.
É preciso criar e aprimorar mecanismos que induzam o capital imobiliário a colaborar com a qualidade do espaço habitável do qual ele é um dos agentes produtores.
Propugnamos uma visão nacional de desenvolvimento urbano alicerçada pela idéia de ações integradas de planejamento do território, mobilidade, habitação e saneamento ambiental, refletida na estrutura e nas ações coordenadas de todos os níveis de governo.
A reversão do modelo predatório de desenvolvimento, que implica na mudança de modos de consumo, exigirá dos arquitetos novos meios de projeto e construção sustentáveis com o enfrentamento crítico e propositivo dos desafios do desenvolvimento. Novos modos de educação dos futuros profissionais deverão ser adotados.
Afirmamos que a universalização do direito à Arquitetura depende da qualidade das obras públicas, dos espaços urbanos e dos programas de habitação social.
As obras públicas devem ser qualificadas pela adoção generalizada de processos de seleção de projetos e serviços, baseados na qualidade.
Os Concursos Públicos de Projetos devem se converter em instrumento de educação para a fruição da Arquitetura e da Urbanidade, através da popularização dessas idéias e do acompanhamento de projetos e obras pela sociedade.
A implantação imediata da Lei de Assistência Técnica, resultado de uma luta de mais de 30 anos, modificará o cenário conturbado de nossas cidades.
Enfatizamos a importância da pesquisa aplicada e da popularização das soluções construtivas adequadas às condições de trabalho, ao bem estar da sociedade, às características do ambiente, à cultura, e à redução de custos e desperdícios.
Defendemos o encontro com a cidade informal, onde possamos, no exercício da profissão, transformá-la em espaços de uma cidade melhor.
Como instrumentos para vencer os desafios desta construção do CAU no Paraná, destacamos alguns como fundamentais:
Em primeiro lugar, as prefeituras municipais: o Brasil, desde a constituição de 1988 e posteriormente com o Estatuto das Cidades (2001), é talvez, a nação mais municipalista do planeta. Porém, os municípios não têm recebido apoio suficiente para a implantação das responsabilidades a eles transferidas. Uma das nossas prioridades será incentivar as prefeituras a contratar arquitetos para contribuir com a gestão do território, e principalmente com a efetiva implantação dos Planos Diretores.
O apoio das Entidades de classe representativas dos arquitetos será fundamental para alimentar o CAU-PR através dos seus Conselheiros com as demandas da sociedade. Da nossa parte, o CAU-PR estará de portas abertas a todas elas, sejam exclusivas de arquitetos ou mesmo mistas;
Todas as esferas do poder público (judiciário, legislativo e executivo) são as principais definidoras da aplicação dos recursos públicos, inclusive aqueles que necessitam do arquiteto e urbanista. Queremos estar representados e contribuir com a elaboração de planejamento urbano, rural e territorial;
Para finalizar leio aqui um trecho de um texto do homenageado, arquiteto Vilanova Artigas, escrito em 1945 em resposta a negociações com um possível cliente. Esta carta, apesar de bastante conhecida no meio dos arquitetos, merece ser sempre lembrada:
....Arquitetura, é construção e arte. Arte não tem livro de regulamento que ensine, nasce dentro de cada um e desenvolve-se como conjunto de experiências. Procure um homem que possa dar à sua casa de saúde, além das características de um hospital eficiente pelo perfeito planejamento das diversas sessões, um valor artístico indiscutível.
O valor artístico é um valor perene, enorme, inestimável. É o valor sem preço  sem desgaste, pelo contrário, aumenta com os anos à proporção que os homens se educam para conhecê-lo. O valor artístico subsiste até nas ruínas. Os anos correm e desgastam o material enquanto valorizam o espiritual.....

João Batista Vilanova Artigas, São Paulo, julho de 1945.


Curitiba, 14 de dezembro de 2011.
Jeferson Dantas Navolar
Presidente do CAU-PR